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O que a Umbanda tem a oferecer?




O que a Umbanda tem a oferecer?
 por Fernando Sepe

 Hoje em dia, quando falamos em religião, os questionamentos são diversos.

 A principal questão levantada refere-se à função da mesma nesse início de milênio.

 Tentaremos nesse texto, de forma panorâmica, levantar e propor algumas reflexões a esse respeito, tendo como foco do nosso estudo a Umbanda. 

O que a religião e, mais especificamente, a religião de Umbanda, pode oferecer a uma sociedade pós-moderna como a nossa? 

Como ela pode contribuir junto ao ser humano em sua busca por paz interior, desenvolvimento pessoal e autorrealização? 

Quais são suas contribuições ou posições nos aspectos sociais, em relação aos grandes problemas, paradoxos e dúvidas, que surgem na humanidade contemporânea? 

Existe uma ponte entre Umbanda e ciência (?) – algo indispensável e extremamente útil, nos dias de hoje, a estruturação de uma espiritualidade sadia. O principal ponto de atuação de uma religião está nos aspectos subjetivos do “eu”.

 Antigamente, a religião estava diretamente ligada à lei, aos controles morais e definição de padrões étnicos de uma sociedade – vide os dez mandamentos e seu caráter legislativo, por exemplo. Hoje, mais que um padrão de comportamento, a religião deve procurar proporcionar “ferramentas reflexivas” ou “direções” para as questões existenciais que afligem o ser humano. 

Em relação a isso, acreditamos ser riquíssimo o potencial de contribuição do universo umbandista, mas, para tanto, necessitamos que muitas questões, aspectos e interfaces entre espiritualidade umbandista e outras religiões e ciência sejam desenvolvidos, contribuindo de forma efetiva para que a religião concretize um pensamento profundo e integral em relação ao ser humano, assumindo de vez uma postura atual e vanguardista dentro do pensamento religioso. Entre essas questões, podemos citar: 

- Um estudo aprofundado dos rituais umbandistas, não apenas em seus aspectos “magísticos”, mas também em seus sentidos culturais, psíquicos e sociais. Como uma gira de Umbanda, através de seus ritos, cantos e danças, envolve-se com o inconsciente das pessoas? 

Como podem colaborar para trabalhar aspectos “primitivos” tão reprimidos em uma sociedade pós-moderna como a nossa? 

Como os ritos ganham um significado coletivo, e quais são esses significados?

 Grandes contribuições a sociologia e a antropologia podem dar à Umbanda. 

- Uma ponte entre as ciências da mente – como a psicanálise, psicologia – e a mediunidade, utilizando-se da última também como uma forma de explorar e conhecer o inconsciente humano. Mais do que isso, os aspectos psicoterápicos de uma gira de Umbanda e suas manifestações tão mítico-arquetípicas. Ou será que nunca perceberemos como uma gira de “erê”, por exemplo, além do trabalho espiritual realizado, muitas vezes funciona como uma sessão de psicoterapia em grupo?

 - A mediunidade como prática de autoconhecimento e porta para momentâneos estados alterados de consciência que contribuem para o vislumbre e o alcance permanente de estágios de consciência superiores. Além disso, por que não a prática meditativa dentro da Umbanda (?) - prática essa tão difundida pelas religiões orientais e que pesquisas recentes dentro da neurociência demonstram de forma inequívoca seus benefícios em relação à saúde física, emocional e mental. 

- Uma proposta bem fundamentada de integração de corpo-mente-espírito. Contribuição muito importante tanto em relação ao bem-estar do indivíduo como também dentro da medicina, visto que a OMS (Organização Mundial da Saúde) hoje admite que as doenças tenham como causas uma série de fatores dentro de um paradigma bio-psíquico-social caminhando para uma visão ainda mais holística, uma visão bio-psíquico-sócio espiritual.

 - O estudo comparativo entre religiões, com uma proposta de tolerância e respeito às mais diversas tradições. Por seu caráter sincrético, heterodoxo e anti fundamentalista, a Umbanda tem um exemplo prático de paz às inúmeras questões de conflitos étnico-religiosos que existem ao redor do mundo.

 - A liberdade de pensamento e de vida que a Umbanda dá as pessoas também deveria ser mais difundida, visto que isso se adapta muito bem ao modelo de espiritualidade que surge como tendência nesse começo de século XXI.

 Parece-nos que a Umbanda há muito tempo deixou de lado a velha ortodoxia religiosa de “um único pastor e único rebanho”, para uma visão heterodoxa de se pensar espiritualidade, onde ela assume diversas formas de acordo com o estágio de desenvolvimento consciencial de cada pessoa, o que vem ao encontro – por exemplo – das ideias universalistas de Swami Vivekananda e seu discurso de “uma Verdade/Religião própria para cada pessoa na Terra”.

 E a Umbanda, assim como muitas outras religiões, pode sim desenvolver essa multiplicidade na unidade. 

- O resgate do sagrado na natureza e o respeito ao planeta como um grande organismo vivo.

 Na antiga tradição iorubana tínhamos um Orixá chamado Onilé, que representava a Terra planeta, a mãe Terra. Mesmo que seu culto não tenha se preservado, tanto nos candomblés atuais como na Umbanda, através de seus outros “irmãos” Orixás, o culto à natureza é preservado e, em uma época crítica em termos ecológicos, a visão sagrada do planeta, dos mares, dos rios, das matas, dos animais etc. ganha uma importância ideológica muito grande e dota a espiritualidade umbandista de uma consciência ecológica necessária. 

- O desenvolvimento de uma mística dentro da Umbanda, onde elementos pré-pessoais como os mitos e o pensamento mágico-animista, possam ser trabalhados dentro da racionalidade, levando até mesmo ao desenvolvimento de aspectos trans pessoais, trans racionais e trans-éticos dentro da religião.

 A identificação do médium em transe com o Todo através do Orixá, a trans-ética que deve reger os trabalhos magísticos de Umbanda, os insights e a lucidez verdadeira que levam a mente para picos além da razão e do alcance da linguagem, o fim da ilusão dualista para uma real compreensão monista através da iluminação, são exemplos de aspectos trans pessoais que podem ser (e faltam ser) desenvolvidos dentro da religião. 

- Os aspectos culturais, afinal Orixá é cultura, as entidades de Umbanda são cultura, o sincretismo umbandista é cultura. 

Umbanda é cultura e é triste perceber o descaso, seja de pessoas não adeptas, como de umbandistas, que simplesmente não compreendem a importância cultural da Umbanda e da herança afro indígena na construção de uma identidade nacional.

 A arte em suas mais variadas expressões tem na Umbanda um rico universo de inspiração. Cabe a ela apoiar e desenvolver mais aspectos de sua arte sacra.

 Essas são, ao nosso entendimento, algumas das “questões-desafios” que a Umbanda tem pela frente, principalmente por ser uma religião nova, estabelecendo-se em um mundo extremamente multifacetado como o nosso. 

Muito mais poderia e com certeza deve ser discutido e desenvolvido dentro dela. 

Apenas por essa introdução já se pode perceber a complexidade da questão e como é impossível ter uma resposta definitiva a respeito de tudo isso. 

Muitos podem achar que o que aqui foi dito esteja muito distante da realidade dos terreiros. Mas acreditamos que a discussão é pertinente, principalmente devido ao centenário, onde muito mais que festas deveríamos aproveitar esse momento para uma maior aproximação de ideais e pessoas, além de uma sólida estruturação do pensamento umbandista. 

Esperamos em outros textos abordar de forma mais profunda e propor algumas ideias a respeito das questões e relações aqui levantas.

Esperamos também que outros umbandistas desenvolvam esses ou outros aspectos que acharem relevantes e caminhemos juntos em busca de uma espiritualidade sadia, integral e lúcida. 



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