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O primeiro Preto Velho


O primeiro Preto Velho 

por Edmundo Pellizari (RAS ADEAGBO) 


Uma antiga lenda contada por velhos juremeiros do Nordeste diz que o primeiro mestre negro que chegou ao Brasil se chamava Joaquim. 

Este era seu nome de batismo cristão. Seu nome africano, provavelmente em língua kimbundu, se perdeu. 

Mestre Joaquim era sábio de nascença. Na Mãe África, em terras de Angola, desde cedo ele observava os kimbandas ou curandeiros locais. 

Joaquim aprendia tudo o que via. Levado por um tio materno, um grande kimbanda, ele recebeu cedinho a sua iniciação no culto. Joaquim foi ensinado a observar a Natureza e a descobrir o mistério atrás de cada folha, raiz e árvore. 

Mãe Ntoto, o grande Nkizi (espírito natural e transcendente) da Terra, acolheu o jovenzinho e transmitiu sua bênção regeneradora a ele. Crescido, o rapaz não teve tempo de formar família. Guerras tribais o levaram longe da aldeia, onde foi aprisionado e embarcado para a distante nação brasileira. 

Desembarcando em porto nordestino, foi vendido. Trabalhou na lavoura dia após dia. Quieto, mas não passivo, observou o sofrimento de seu povo. Nas poucas horas de tranquilidade atendia aos doentes. 

Com o auxílio dos espíritos de Mãe Ntoto, descobriu as funções das ervas que aqui cresciam. Preparava breves, poções e mezinhas. Quando tinha chance, amoitava-se e penetrava no mato, onde falava com os espíritos locais, invocava os ancestrais e rezava aos Minkizi (o conjunto dos Nkizi). 

Certo dia foi procurado por um índio velho, que administrava uma pequena propriedade de um capataz branco. O índio tinha observado as atividades de Joaquim no mato e ficou muito curioso... Uma amizade forte e espiritual nasceu deste encontro. Foi com este índio que Joaquim conheceu os poderes da Jurema. 

Numa noite ele bebeu da cuia de Jurema do velho tuxaua, sentiu seu corpo frio como a morte, percebeu a mente crescer e ganhar asas... A alma de Joaquim voou pelos céus e viu as casas ficarem pequeninas, a Lua ficar mais perto e as estrelas parecerem mais brilhantes. 

Lá no firmamento parecia existir uma luz desconhecida e ele seguiu até lá. O luzeiro foi ficando mais perto e Joaquim encontrou uma aldeia, com gente, casa e tudo. Um cacique desconhecido chegou perto dele e o recebeu com alegria e dignidade. 

Joaquim entrara na misteriosa Cidade dos Mestres, na Aldeia do Juremal! 

O que ele realmente viu e aprendeu lá nunca contou a ninguém. Mas quando voltou à terra dos encarnados, ele não era mais um Joaquim, era o Mestre Joaquim! 

O tempo corria e nosso mestre, ainda escravo, foi consumindo seu corpo no serviço desumano imposto a sua raça. Um tarde ele se aconchegou depois do trabalho, fechou os olhos e morreu. 

Sua alma foi levada novamente para a Cidade Santa e entrou triunfalmente no santuário da Mãe Jurema, louvado pelos mestres e mestras, profetas e guerreiros. 

Certa madrugada uns caboclos montaram uma mesa (sessão espiritual de jurema), cantaram e abriram as portas reais. 

Os mestres do Outro Mundo foram baixando um após o outro. Tudo era harmonia e beleza! Um caboclo maduro e mais escuro cantou: 

“Mestre Joaquim, é kimbanda! Veio trabalhar, é kimbanda! Mestre Joaquim é de Angola, é kimbanda! É kimbanda!”* (Nos Pontos ou Linhos mais modernos e populares, a palavra “é kimbanda”, ou seja “é curandeiro”, transformou-se em “esquimbanda”. Daí perdemos o sentido tradicional africano.) 

Esta foi a primeira vez que Mestre Joaquim acostou (baixou ou incorporou na linguagem dos juremeiros) e desde então começou seu eterno exercício de caridade, fruto do amor maior e da ciência sublime. 

Mestre Joaquim de Angola, de cachimbo na mão e chapéu na cabeça: o Rei negro da Jurema Sagrada! 

O tempo passou depressa... A Umbanda ainda não tinha nascido, mas Mestre Joaquim já procurava outros agrupamentos para levar a sua missão. 

O negro bantu nunca temeu seus ancestrais e sempre colocou suas almas benditas no coração quente que batia de saudades. Lá nas praias do Nordeste, nas montanhas de Minas Gerais ou no sopé dos morros cariocas, nosso mestre juremeiro africano batia sua bengala e dava seu nome: Pai Joaquim de Angola! 

Imagem da bondade, da sabedoria e da humildade. 

Quando a Umbanda veio a este mundo, gestada na luz de Cristo, no Axé dos Orixás e Minkizis e abençoada pela energia dos pajés, Pai Joaquim foi um dos primeiros guias a se apresentar. 

Afinal já era preto velho diplomado! Pai Joaquim baixou e nunca parou de trabalhar. “Pai Joaquim, ê, ê, Pai Joaquim, ê á, Pai Joaquim veio de Angola, Pai Joaquim é de Angola, Angola á!” 

*Usamos neste artigo a palavra Kimbanda em seu sentido tradicional: curandeiro ou xamã bantu. Não é, portanto, uma referência ao quimbandeiro ou praticante da Quimbanda, culto sincrético com poucos elementos bantu.


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